terça-feira, 21 de abril de 2009

Publicação polêmica do poeta Ferreira Gullar

Transcrevo abaixo o artigo do poeta Ferreira Gullar publicou na semana passada, vamos opinar sobre isso...

Uma lei errada
Campanha contra a internação de doentes mentais é uma forma de demagogia
ACAMPANHA contra a internação de doentes mentais foi inspirada por um médico italiano de Bolonha. Lá resultou num desastre e, mesmo assim, insistiu-se em repeti-la aqui e o resultado foi exatamente o mesmo.Isso começou por causa do uso intensivo de drogas a partir dos anos 70. Veio no bojo de uma rebelião contra a ordem social, que era definida como sinônimo de cerceamento da liberdade individual, repressão “burguesa” para defender os valores do capitalismo.
A classe média, em geral, sempre aberta a ideias “avançadas” ou “libertárias”, quase nunca se detém para examinar as questões, pesar os argumentos, confrontá-los com a realidade. Não, adere sem refletir.
Havia, naquela época, um deputado petista que aderiu à proposta, passou a defendê-la e apresentou um projeto de lei no Congresso. Certa vez, declarou a um jornal que “as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles”. E eu, que lidava com o problema de dois filhos nesse estado, disse a mim mesmo: “Esse sujeito é um cretino. Não sabe o que é conviver com pessoas esquizofrênicas, que muitas vezes ameaçam se matar ou matar alguém. Não imagina o quanto dói a um pai ter que internar um filho, para salvá-lo e salvar a família. Esse idiota tem a audácia de fingir que ama mais a meus filhos do que eu”.
Esse tipo de campanha é uma forma de demagogia, como outra qualquer: funda-se em dados falsos ou falsificados e muitas vezes no desconhecimento do problema que dizem tentar resolver. No caso das internações, lançavam mão da palavra “manicômio”, já então fora de uso e que por si só carrega conotações negativas, numa época em que aquele tipo hospital não existia mais. Digo isso porque estive em muitos hospitais psiquiátricos, públicos e particulares, mas em nenhum deles havia cárceres ou “solitárias” para segregar o “doente furioso”. Mas, para o êxito da campanha, era necessário levar a opinião pública a crer que a internação equivalia a jogar o doente num inferno.
Até descobrirem os remédios psiquiátricos, que controlam a ansiedade e evitam o delírio, médicos e enfermeiros, de fato, não sabiam como lidar com um doente mental em surto, fora de controle. Por isso o metiam em camisas de força ou o punham numa cela com grades até que se acalmasse. Outro procedimento era o choque elétrico, que surtia o efeito imediato de interromper o surto esquizofrênico, mas com consequências imprevisíveis para sua integridade mental. Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos. Já os remédios neuroléticos não apresentam qualquer inconveniente e, aplicados na dosagem certa, possibilitam ao doente manter-se em estado normal. Graças a essa medicação, as clínicas psiquiátricas perderam o caráter carcerário para se tornarem semelhantes a clínicas de repouso. A maioria das clínicas psiquiátricas particulares de hoje tem salas de jogos, de cinema, teatro, piscina e campo de esportes. Já os hospitais públicos, até bem pouco, se não dispunham do mesmo conforto, também ofereciam ao internado divertimento e lazer, além de ateliês para pintar, desenhar ou ocupar-se com trabalhos manuais.
Com os remédios à base de amplictil, como Haldol, o paciente não necessita de internações prolongadas. Em geral, a internação se torna necessária porque, em casa, por diversos motivos, o doente às vezes se nega a medicar-se, entra em surto e se torna uma ameaça ou um tormento para a família. Levado para a clínica e medicado, vai aos poucos recuperando o equilíbrio até estar em condições que lhe permitem voltar para o convívio familiar. No caso das famílias mais pobres, isso não é tão simples, já que saem todos para trabalhar e o doente fica sozinho em casa. Em alguns casos, deixa de tomar o remédio e volta ao estado delirante. Não há alternativa senão interná-lo.
Pois bem, aquela campanha, que visava salvar os doentes de “repressão burguesa”, resultou numa lei que praticamente acabou com os hospitais psiquiátricos, mantidos pelo governo. Em seu lugar, instituiu-se o tratamento ambulatorial (hospital-dia), que só resulta para os casos menos graves, enquanto os mais graves, que necessitam de internação, não têm quem os atenda. As famílias de posses continuam a por seus doentes em clínicas particulares, enquanto as pobres não têm onde interná-los. Os doentes terminam nas ruas como mendigos, dormindo sob viadutos.
É hora de revogar essa lei idiota que provocou tamanho desastre.

9 comentários:

Taty disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Taty disse...

Parabéns pelos trabalhos feitos;meninas senti por não ter ido no sábado.
Show de bola a apresentação.
Beijos
Taty

José Otávio Pompeu e Silva disse...

Coloco o comentário que coloquei sobre o artigo no blog do Bruno Gagliasso
gagliassoblog.com
Acredito que “toda unanimidade é burra” e acredito que deveríamos estudar com mais profundidade o artigo do poeta Ferreira Gullar. Como terapeutas (pessoas que cuidam do outro) precisamos ter alteridade (saber colocar-se no lugar do outro). O poeta traz críticas que nos fazem pensar em nossos erros da reforma psiquiátrica brasileira e deveríamos ter a humildade de aceitá-los e procurar transformarmos e estudar formas de conseguir atender com mais humanidade todos os tipos de sofrimento mental.
Transcrevo abaixo a minha opinião ao ler o artigo do poeta Ferreira Gullar.
Vi que ninguém opinou sobre o texto do Ferreira Gullar que também acompanhou de perto o trabalho da doutora Nise da Silveira e conhece profundamente o tema da esquizofrenia.
Concordo em partes com o que ele escreveu na Folha. O problema é que a reforma psiquiátrica brasileira tem estudos e ações na esfera política e faltam estudos e práticas terapêuticas. Precisamos estudar terapias que realmente funcionem com a esquizofrenia e termos ações para os pacientes mais graves que necessitam de mais atenção e muitas vezes de internação especializada com equipes interdisciplinares em hospitais gerais. O NHS (sistema de saúde da Inglaterra) tem 18 tipos de dispositivos de saúde mental para atender os diversos tipos de sofrimentos mentais. Lá um terapeuta ocupacional atende uma média de 6 pacientes, no Brasil, nós profissionais de saúde chegamos a atender 100 diferentes pacientes no mês.
Eu acredito muito no trabalho da doutora Nise da Silveira e estudo a fundo. Ela falava que as pessoas que mais a entendiam eram os artistas, os poetas e os loucos.
Convoco você a divulgar as técnicas avançadas criadas há mais de 50 anos no Brasil e que mudaram a vida de muitos esquizofrêncos. O afeto catalizador, a emoção de lidar, o uso da arte, os animais como co-terapeutas, as imagens do inconsciente.
Hoje no Brasil temos terapeutas como o Lula Wanderley, a Gladys Schincariol, A Lizete Vaz que continuam e transformam o trabalho iniciado pela Nise da Silveira. O Brasil precisa avançar e ver que o tratamento da esquizofrenia é humano e com muito conhecimento e não uma ação de política revolucionária.

Um abraço,

José Otávio

Marcela disse...

Olá Professor como ja citado na aula, este texto provoca o leitor por mexer com o sentimento mais puro e verdadeiro que alguém possa sentir que é o amor de pais. Esse artigo mexeu comigo por nunca ter pensado pelo lado da família, de cuidadores e da sua condição social, ainda preciso ler e entender mais sobre isso para formar uma opinião mais concreta.
Porem acho, como já postado no blog do Bruno G., que a hierarquia na saúde (médico) ainda existe porem já diminuída em relação a outras épocas. Seria necessário para minimizar o sofrimento dos doentes e de suas famílias maior assistencia com um numero de profissionais de Terapia Ocupacional, psicologia, médicos, educador físico, enfermeiro, mais capacitados e humanizados atuando nesta área de abrindo um leque de opções para tratamento de saúde mental.

Beijos
Marcela

Anônimo disse...

Boa noite professor,

O texto do poeta Gullar me fez refletir sobre a necessidade de não somente pensar na reforma de uma lei, mas sim numa necessidade em se reformar o PENSAMENTO.
Pensar nas diferentes formas de se entender a complexidade que envolve as relações entre familia, individuo e sociedade, seja o primeiro passo contra uma VERDADE ÚNICA, que seria a morte para a humanidade.
POLÊMICO? Eu diria mais, um PAI!

Um abraço
William Felipe Lucena

Taty disse...

Olá professor,boa noite:
O poeta Ferreira Gullar abordou de maneira corajosa na minha opinião a questão da assistência à saúde mental.O escritor, vive esse problema em sua própria família e isso para mim já é uma grande escola.
Pelo que entendi,Gullar apenas fez esta crítica para que as pessoas começassem a repensar sobre este dia que eu não consigo entender o que tem que ser comemorado.Não é bacana ser Louco.Este dia teria que ser revisto na minha humilde opinião e deveríamos começar á repensar esta data como comemoração,acho que isso é mais político do que realmente o dia da Luta Antimanicomial.

Eu,Tatiana,estudante de Terapia Ocupacional e amante das pessoas e do que elas são,independente de suas patologias,parabenizo Gullar,por ter provocado durante toda a semana uma discussão sobre este tema,e com certeza logo logo outros assuntos ocuparão o espaço e este cairá no esquecimento,infelismente, isso para as pessoas que se ofenderam com o que leram.
Não conseguimos nem sequer imaginar o que é um pai ter dois filhos doentes mentais e conviver com isso há tanto tempo.
Já imaginou o que essa família deve ter vivido?Pessoas estas que viveram dentro de casa com esta doença tão ameaçadora ao mesmo tempo se controlada e vista ela pode ser apenas uma cicatriz que você terá que conviver pelo resto de seus dias.
Acho que falta um pouco no ser humano,um lado de começar se colocar e sentir o que o outro passa ou sente,antes de qualquer tipo de julgamento e de pensamento sobre tal situação ou tal acontecimento.
Respeito as opiniões diversas de cada pessoa,porém estou aqui deixando a minha e uma possível mudança de paradigmas e crenças que ajudam-nos á não olharmos para as pessoas e para nós mesmos como realmente somos.
Obrigada pelo espaço.
Taty Negri.

sonya_sampaio2009 disse...

Ola professor
Sonia aluna T.O.
Parabenizo poeta Ferreira Gullar por sua corajosa decisão e de ter provocado muita polemica e com sua forma verdadeira de pensar consciente e de todos esses familiares que convivem com essas pessoas esquizofrenicas.E Gullar com seus 2 filhos há muitos anos
passando por esse processo convivendo com esta patologia em sua casa e sabendo que é uma doença que ameaça ele e as pessoas mais proxima a ele.
Com isso Gullar propoe a revogação da Lei 2001.
Com essa lei muitos familiares abandonaram seus parentes queridos por falta de condições com poucos recursos também de orientações.
Com a implantação da lei eles queriam diminuir o numero de pacientes em hospitais psiquiatricos mas ao mesmo tempo não conseguiram cumprir a finalidade da reinserção social do paciente em seu meio que vive. e com isso surge os CAPS.
oO ser humano precisa ser ouvido e ter um pouco mais de amor ao próximo como à si mesmo.
Chegou a hora de revogar esta lei

Um Abraço,
Sonia

sonya_sampaio2009 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Coluna Diversidade - Nova Gazeta disse...

Olá!
Estou passando para conhecer o blog e aproveitando para segui-lo! Conheça o meu tb!
Sou Terapeuta Ocupacional!
http://www.colunadiversidade.blogspot.com
Abração!
Parabéns pela iniciativa!
Afonso Jr