29 de novembro de 2012
Prezada Nise da Silveira,
Resolvi escrever mais uma carta, esta para lhe contar sobre uma decisão intepestiva que tive hoje, depois de pensar em temas de complexidade, duração e ética. Lembrei do jovem Spinoza, lutando com a incompreensão de sua comunidade judaica, da vivida Nise da Silveira que não aceitou apertar o botão do positivismo.
Vi um anúncio de uma experiência com jovens seres humanos que poderão ter a oportunidade de serem internados para a ciência descobrir o que acontece quando o jovem experimenta sua primeira experiência de um estado mais profundo do ser. Doutora Nise, conto agora detalhes desse anúncio que foi feito para aparecer em telas que conectam pessoas e tem o nome de livro de faces. As pessoas replicam a informação instanteneamente tocadas pela imagem do quadro O Grito. O jovem que experenciou realidades inumeráveis, agora será encarcerado para ser examinado por máquinas e sensores dos mais diversos, ter seu código genético extraído e realizar todos os sonhos do obscuro José Menguele. Enquanto estou escrevendo-lhe essa missiva, centenas de pessoas estão compartilhando o grito em suas telas em que a palavra perdeu o seu valor, as pessoas enviaram para as profundezas da psique sua capacidade de ler e interpretar o significado e relacionam-se diretamente com formas e cores, mesmo se a relação entre palavras e imagem for paradoxal.
Um detalhe, hoje existem cartórios que carimbam selos de ética em pesquisa científica com seres humanos e um desses cartórios conferiu a esta pesquisa que vos descrevo o carimbo de Ética, não por acaso, o mesmo título do livro de Benedito Spinoza. Talvez o ser humano esteja em um tempo de uma confusão que obscurece seu julgamento do bem e do mal, escutei hoje um filósofo dizendo que vivemos uma fratura no Ethos... Lembrei imediatamente de Fênix, quando a sociedade atinge as cinzas, algo surge e toma forma, vamos esperar que a sociedade contemporânea reaja de sua fratura que fissura nossos dias.
Agora compartilho minha súbita decisão... Não vou participar desta ciência que usa seres humanos como objetos inanimados... Existem outras formas de compreender o ser humano. Podemos olhar para outras ferramentas da ciência e arte e transgredir a obtusidade que se impõe ...
Em algum lugar nos ares entre Brasília e Rio de Janeiro.
Jose Otavio
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quinta-feira, 29 de novembro de 2012
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Imagens do Inconsciente
Este livro foi escrito num período muito difícil da vida da psiquiatra que teve a ameaça de ficar cega por uma doença oftalmológica que lhe atingiu nesta época. Curada desta patologia, ficou com uma sequela que dificultou sua visão pelo resto da vida.
Outra curiosidade neste livro é que ele foi traduzido para o inglês e foi revisado nas terminologias junguianas por Marie-Louise Von Franz, discípula direta do próprio psiquiatra suiço Carl Gustav Jung.
O livro é extremamente cuidadoso no respeito com as fontes de pesquisa e mostra a retidão científica da doutora Nise da Silveira.
Como "Missão Possível" peço que tragam na quinta-feira um exemplar deste livro para a aula (vale 2 pontos). Se duas equipes trouxerem valerá a equipe que trouxer a edicão mais antiga.
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Nise da silveira
sexta-feira, 13 de março de 2009
Nise da Silveira
Nise da Silveira nasceu na primeira década do século passado na cidade de Macéio no estado de Alagoas. Filha única de uma pianista e um professor de matemática, a casa de Nise na infância permanecia sempre cheia com saraus regados a muita música e conversas sobre os mais variados assuntos. Nise contou em uma entrevista para o terapeuta ocupacional pernambucano Luiz Gonzaga que sua mãe sentava ao piano à espera da visita do sabiá laranjeira ao qual ela imitava seu canto com crescente maestria. Nise estudou em um colégio católico de meninas em que o francês e o latim eram matérias obrigatórias. Apaixonou-se pela geometria, ensinada de coração pelo seu pai. Entrou com 15 anos no curso de medicina. Foi a única mulher numa turma de mais de 100 homens na faculdade de medicina da Bahia. Defendeu uma tese sobre a crimilidade feminina em uma sessão em que seu pai esteve presente. Este foi um dos últimos encontros com seu pai que faleceu pouco tempo depois. Em entrevistas Nise relata que o falecimento do seu pai foi a maior tragédia de sua vida, gostava muito de sua mãe, mas era apaixonada por seu pai, em suas palavras de psicanalista: "um Édipo caprichado".
Para buscar esquecer este fato, Nise da Silveira junto com seu primo e companheiro Mário da Silveira, navegam para a capital federal e se instalam no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Lá foram vizinhos do poeta Manuel Bandeira e do líder comunista Otávio Brandão na rua do Curvelo.
Nise foi presa, acusada de comunismo, no presidio Frei Caneca por um ano e quatro meses durante a ditadura Vargas. Ficou na mesma cela de Olga Benário e Elisa Berger que foram deportadas para Alemanha e morreram na mão do nazismo. Durante os tempos de prisão estudou muita filosofia e conheceu pessoas muito sábias como seu conterrâneo Graciliano Ramos que a colocou como uma das personagens do livro Memórias do Cárcere em que o escritor relata seu período de confinamento na prisão.
Depois de liberada da prisão, Nise passou alguns anos na clandestinidade e escondeu-se em estados do norte e nordeste do país. Nesta época seu marido serviu como médico sanistarista em bases militares internacionais no norte da África.
Em 1944, com a volta do regime democrático ao país, Nise da Silveira reassumiu sua vaga no serviço psiquiátrico que tinha ingressado em 1933 por concurso público. Algum tempo depois de voltar ao trabalho Nise foi convidada por um psiquiatra chefe do serviço para assistir uma sessão de eletrochoque e depois de o psiquiátra demonstrar a técnica, aplicando o eletrochoque em um paciente, mandou a doutora Nise apertar o botão e ela respondeu prontamente: "Eu não aperto o botão". Aí nasceu a psiquiatra rebelde que transformou as formas de tratar o doente mental e que realizou pequenas revoluções que ainda hoje ressoam em todos que procuram uma forma humana e digna de tratamento do sofrimento mental.
Nise da Silveira foi transferida para o serviço de terapêutica ocupacional e encontrou no uso terapêutico da atividade uma forma diferente tratar os doentes mentais. Aposentou a forma antiga de fazer terapêutica ocupacional em que usava-se a limpeza e a costura que auxiliavam na economia hospitalar e com muita criatividade, estudo e ousadia criou oficinas de pintura, modelagem, encadernação e muitas outras formas de expressividade através de atividades terapêuticas. Nise sabia encontrar as pessoas certas para o lugar certo e resgatou dos serviços burocráticos um jovem de nome Almir Mavignier que no seu afã de tornar-se artista plástico criou um ateliê de pintura e encontrou verdadeiros artistas para dividir com ele o ateliê. Nise e Almir encontraram artistas como Emygidio de Barros, Fernando Diniz e Raphael Domingues em que a força plástica de suas obras levaram a serem expostos em importantes museus do Brasil e do exterior.
Nise da Silveira desenvolveu na década de 50 do século passado uma pesquisa de revisão dos principais autores da terapia ocupacional na época no mundo, queria encontrar as bases teóricas de seu trabalho. Com uma bolsa do CNPQ encontrou na Alemanha com Simon, um dos pensadores da profissão na época. Outro encontro marcante foi com o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung que abriu as portas do inconsciente para a psiquiatra brasileira. Nise relata no seu diário a emoção deste encontro. Conta que ao chegar à casa de Jung foi tomada pela inscrição "Invocado ou não Deus estará presente" inscrita em latim e esculpida em pedra.
Nise desenvolveu uma extensa obra, colecionou mais de 300 mil obras que hoje constituem o Museu de Imagens do Inconsciente no Rio de Janeiro. Conduziu o mais duradouro grupo de estudos independente no Brasil que durou de 1957 até poucos anos antes da sua morte em 1999. Nestes grupos foram tratados os mais diversos temas desde a psicologia junguiana até críticas a farra do boi que acontecia em Santa Catarina. Nise foi o elo de ligação entre gerações e agregou importantes aliados nas mais diversas áreas. Criou tecnologias em saúde mental que ainda hoje são inovadoras e desconhecidas. Enquanto a cultura e a ciência buscavam uma massificação do ser humano, Nise da Silveira construiu narrativas de pessoas com sofrimento mental que descortinam relações com a mitologia, antropologia, sociologia.
E com tudo isso suas criações que relacionam-se com a terapia ocupacional são desconhecidas por professores, profissionais e alunos da área. O mito de Nise da Silveira vive nomeando salas de congressos e Caps por todo Brasil, mas sua técnica é esquecida.
Para buscar esquecer este fato, Nise da Silveira junto com seu primo e companheiro Mário da Silveira, navegam para a capital federal e se instalam no bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro. Lá foram vizinhos do poeta Manuel Bandeira e do líder comunista Otávio Brandão na rua do Curvelo.
Nise foi presa, acusada de comunismo, no presidio Frei Caneca por um ano e quatro meses durante a ditadura Vargas. Ficou na mesma cela de Olga Benário e Elisa Berger que foram deportadas para Alemanha e morreram na mão do nazismo. Durante os tempos de prisão estudou muita filosofia e conheceu pessoas muito sábias como seu conterrâneo Graciliano Ramos que a colocou como uma das personagens do livro Memórias do Cárcere em que o escritor relata seu período de confinamento na prisão.
Depois de liberada da prisão, Nise passou alguns anos na clandestinidade e escondeu-se em estados do norte e nordeste do país. Nesta época seu marido serviu como médico sanistarista em bases militares internacionais no norte da África.
Em 1944, com a volta do regime democrático ao país, Nise da Silveira reassumiu sua vaga no serviço psiquiátrico que tinha ingressado em 1933 por concurso público. Algum tempo depois de voltar ao trabalho Nise foi convidada por um psiquiatra chefe do serviço para assistir uma sessão de eletrochoque e depois de o psiquiátra demonstrar a técnica, aplicando o eletrochoque em um paciente, mandou a doutora Nise apertar o botão e ela respondeu prontamente: "Eu não aperto o botão". Aí nasceu a psiquiatra rebelde que transformou as formas de tratar o doente mental e que realizou pequenas revoluções que ainda hoje ressoam em todos que procuram uma forma humana e digna de tratamento do sofrimento mental.
Nise da Silveira foi transferida para o serviço de terapêutica ocupacional e encontrou no uso terapêutico da atividade uma forma diferente tratar os doentes mentais. Aposentou a forma antiga de fazer terapêutica ocupacional em que usava-se a limpeza e a costura que auxiliavam na economia hospitalar e com muita criatividade, estudo e ousadia criou oficinas de pintura, modelagem, encadernação e muitas outras formas de expressividade através de atividades terapêuticas. Nise sabia encontrar as pessoas certas para o lugar certo e resgatou dos serviços burocráticos um jovem de nome Almir Mavignier que no seu afã de tornar-se artista plástico criou um ateliê de pintura e encontrou verdadeiros artistas para dividir com ele o ateliê. Nise e Almir encontraram artistas como Emygidio de Barros, Fernando Diniz e Raphael Domingues em que a força plástica de suas obras levaram a serem expostos em importantes museus do Brasil e do exterior.
Nise da Silveira desenvolveu na década de 50 do século passado uma pesquisa de revisão dos principais autores da terapia ocupacional na época no mundo, queria encontrar as bases teóricas de seu trabalho. Com uma bolsa do CNPQ encontrou na Alemanha com Simon, um dos pensadores da profissão na época. Outro encontro marcante foi com o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung que abriu as portas do inconsciente para a psiquiatra brasileira. Nise relata no seu diário a emoção deste encontro. Conta que ao chegar à casa de Jung foi tomada pela inscrição "Invocado ou não Deus estará presente" inscrita em latim e esculpida em pedra.
Nise desenvolveu uma extensa obra, colecionou mais de 300 mil obras que hoje constituem o Museu de Imagens do Inconsciente no Rio de Janeiro. Conduziu o mais duradouro grupo de estudos independente no Brasil que durou de 1957 até poucos anos antes da sua morte em 1999. Nestes grupos foram tratados os mais diversos temas desde a psicologia junguiana até críticas a farra do boi que acontecia em Santa Catarina. Nise foi o elo de ligação entre gerações e agregou importantes aliados nas mais diversas áreas. Criou tecnologias em saúde mental que ainda hoje são inovadoras e desconhecidas. Enquanto a cultura e a ciência buscavam uma massificação do ser humano, Nise da Silveira construiu narrativas de pessoas com sofrimento mental que descortinam relações com a mitologia, antropologia, sociologia.
E com tudo isso suas criações que relacionam-se com a terapia ocupacional são desconhecidas por professores, profissionais e alunos da área. O mito de Nise da Silveira vive nomeando salas de congressos e Caps por todo Brasil, mas sua técnica é esquecida.
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